Leveza e Densidade
Trabalhando com paradoxos, a artista vai tramando suas poesias visuais que pairam no espaço envolvendo quem as circundam. Contemporânea sem largar a antiga tradição dos trabalhos manuais, Maria Clara utiliza-se tanto de elementos naturais quanto de industriais para compor objetos-tapete-escultura-obra...


Fernanda Albertoni

Maria Clara Fernandes toca o piano que fica em meio a nove teares, em meio a obras penduradas no teto como casulos de uma fertilidade latente, dentro do atelier, em meio à natureza da chácara em Ratones... É assim que a artista paulistana, radicada há 20 anos em Florianópolis, começa seu dia de trabalho. Tudo que produz parece ter vida e movimento. Seja nas formas ondulantes, nas formas musicais, na música, no material orgânico, também no material inorgânico, no envelhecimento, decomposição, oxidação, transformação do refugo em beleza, transformação do belo no estranho, e em todas as dicotomias de suas obras.

Maria Clara também pode ser encontrada como Clara Fernandes, confusão que não incomoda a artista. Ela gosta de todas as coisas cambiantes que a envolvem, sejam oposições, analogias, duplicidades, sem permanecer sempre no simplismo binário. “O interessante é que a gente vai mudando, o artista tem fases como todas as outras pessoas”, diz a artista. Suas obras, que à primeira vista podem chamar a atenção do público pelo aspecto da beleza, do sublime, levam à reflexão sobre problemáticas contemporâneas: a busca pela conservação versus envelhecimento, preservação versus depredação descontrolada, o belo versus o estranho, orgânico versus inorgânico. E a artista reflete todas essas questões comuns e caras à contemporaneidade de forma bastante particular.

O crítico e curador independente Charles Narloch, diz, a respeito de sua obra: “Não é difícil reconhecer a obra de Clara Fernandes. Suas diferentes fases de produção apresentam conexões fundamentadas em uma poética singular que, apesar de absolutamente atual, caminha independente, insulada no oceano dos padrões momentâneos”. A artista também não parece estar ligando para o tempo em que o mundo corre, é como se tivesse criado um tempo diferente para o seu próprio mundo, nele, o envelhecimento tem outro ritmo, o aparecimento das obras para o mundo é acronológico, e o entendimento dessas obras pode acontecer mais tarde, até para a própria artista.

Com uma formação de tecelã, Maria Clara foi extrapolando os limites dos tapetes, das formas aos materiais, subindo suas obras do chão, dando-as estruturas escultóricas, fazendo-as chegar até o teto. Segundo o crítico e curador Tadeu Chiarelli “ela não trilhou o caminho previsível de todos os artistas que lidam artisticamente com os têxteis. Ao contrário de seus colegas que buscam operar com o plano verticalizado do panneau, Maria Clara Fernandes, ao abandonar o raciocínio da forma tradicional do tapete, manteve sua obra no chão ou, pelo menos, manteve a horizontalidade como eixo focal de seu trabalho. Na verdade, pode-se dizer que a artista não abandonou propriamente a forma horizontal do tapete. Ela simplesmente (e isso é tudo!), ela simplesmente problematizou tal forma, agregando-lhe volume, por meio de estruturas, ou de uma espécie de arquitetura fragílima que suspende e encurva partes do plano original do tapete, transformando-o em cilindros ou túneis que percorrem o espaço”.

Rumo à contemporaneidade

Sua primeira obra considerada notavelmente contemporânea foi Terral, feita em 1989. Esse é um tapete tramado com Tlandsya (bromélia de origem ancestral conhecida como “barba-de-velho”), com um tamanho desmesurado, 22m de comprimento. “Eu estava me apropriando da minha linguagem têxtil, mas fiz uma obra com certa estranheza”, diz a artista. Essa obra foi exposta pela primeira vez como uma intervenção urbana no Centro Integrado de Cultura, o CIC, e depois foi levada a alguns países da Europa como Portugal e Dinamarca por um curador.

No ano seguinte, 1990, a artista faz a sua segunda obra interessante, segundo a própria, que é a Sem Retorno. Essa tinha a mesma grande dimensão da Terral, só que era feita de sacos de plástico preto para lixo, metais e papéis tramados em tear. Os dois trabalhos foram expostos juntos no momento em que, segundo Tadeu Chiarelli, a artista emergiu em definitivo na cena artística nacional. Isso foi no ano de 1995, na exposição “15 artistas brasileiros” curada pelo próprio Tadeu no MAM de São Paulo. Juntas as obras contrapunham o orgânico e o industrial, a natureza e a cultura.

Maria Clara Fernandes comenta a questão do tempo: “olha como eu falo essa coisa do tempo, as obras são de 1989 e 1990 e foram emergir em 1995. Até para mim a importância dessa primeira obra foi crescendo, como artista era tudo ainda muito espontâneo para mim. E mesmo porque, eu acredito que o artista tem antenas, ele antevê, então nem sempre uma produção é entendida naquele momento”.

E assim a artesã foi mostrando seu lado artista, inserindo “estranhezas”, coisas “erradas” na técnica que tanto dominava, levando junto o apuro técnico e a transgressão. Ela entrou em contato com o tear num período de pausa profissional. Maria Clara iniciou os estudos em psicologia, depois mudou para a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, só que na área de jornalismo. Ela já estava quase se formando quando resolveu dar uma parada por causa dos filhos pequenos. O tear apareceu como um hobby, um complementar para a mãe que ficou em casa com os filhos.

Maria Clara começou a pesquisar técnicas a fundo, fazer cursos, ler livros, tornou-se uma tecelã profissional, formou um atelier e nunca mais voltou para o jornalismo. A mudança para Florianópolis ocorreu logo em seguida: com o nascimento do terceiro filho viu que não queria permanecer em São Paulo e mudou-se direto para a chácara em Ratones, onde permanece até hoje.

O ambiente da cidade, e especialmente da chácara onde mora, é determinante na poética de Maria Clara, tanto no trabalho de arte contemporânea como no de tecelagem manual. Tadeu Chiarelli, que é um crítico e curador paulista, comenta a respeito da exposição ocorrida na grande metrópole: “ela traz para o terreno da arte a dicotomia vivenciada por todos aqueles que habitam Florianópolis, um lugar em que não se sabe se a natureza é contaminada pela cidade ou vice-versa. Ali parece não ter havido ainda a superação total da natureza pela cultura e os dois estágios parecem conviver lado a lado, às vezes se entrecruzando em tramas insuspeitas, às vezes mantendo uma certa e desconfiada distância... Assim também se comportam os trabalhos da artista, constituindo uma poética muito particular porque fruto de uma sensibilidade atenta ao entorno e capaz de traduzi-lo com segurança, numa linguagem que, apesar de possuir raízes tão locais, consegue tocar a todos”.

As fases de uma trajetória

Quando fez Terral, a artista ainda não tinha uma preocupação com a permanência, a conservação da obra, apesar desta existir até hoje. Alguns trabalhos feitos anteriormente com matérias-primas da chácara e enviados aos Salões de artistas jovens da cidade, depois que retornavam eram devolvidos à natureza. “Voltavam a ser húmus como antes, era a minha permacultura”, diz ela. Só no período da consagração com a exposição no MAM é que Maria Clara começou a dar maior valor à sua produção, querendo conservá-la como objeto, e não apenas como registro fotográfico.

Na obra Sem Retorno, que ainda lembra um tapete, a artista já estava buscando uma saída para a tridimensionalidade, com elementos que pareciam saltar dele, e principalmente, na forma ondulante em que o dispunha no espaço. A partir de Sem Retorno, Clara Fernandes começou a transformar lixo em objetos, o que mais tarde gerou a série Cractais. “Craca” é material orgânico que vai se reorganizando e depois procura alguma coisa para acoplar-se, é aquilo que encontramos grudado nas pedras do mar. Maria Clara reorganiza refugo industrial, um lixo inorgânico. Ela montou seus 40 Cractais com fio de eletro-erosão, resto descartado da liga metálica utilizada no processo de ferramentaria na indústria automobilística. “Comecei a brincar, a misturar o refugo industrial, inorgânico, e o refugo orgânico, a transformar lixo numa coisa visualmente mais interessante. E eu acho que é isso que eu estou fazendo até hoje”. Essas obras, assim como as seguintes que a artista ainda faria com esse mesmo material metálico, têm uma aparente leveza e organicidade. À primeira vista imaginamos que é feita de palha, e nos surpreende quando descobrimos o peso, a inorganicidade e o material das peças. São essas dicotomias que interessam à artista.

Em 1997, realizou sua primeira exposição individual. Ela ocorreu no Museu de Arte de Santa Catarina, o MASC, e chamou-se “Iluminuras”. Essa foi uma mostra muito bonita, palavras da artista, que começava com Miragem, uma trama de metal e galhos de videira, que ficava na entrada da exposição, como um véu transparente, meio obstruindo, meio revelando as outras obras; em seguida passava-se pelos Cractais, instalados no teto, como casulos, numa altura em as pessoas tinham que desviar-se deles para andar pela exposição; até que se chegava a Marais, languidamente dispostos no chão. Durante a exposição a artista observou que alguns espectadores deitavam-se no chão para olhar o interior dos Cractais. Foi aí que ela começou a observar o mundo interno destes, e tentando buscar esse mundo que entrou no Impenetrável.
“Impenetrável é uma série muito linda, com uma dessas obras é que ganhei o VI Salão Victor Meirelles”. O trabalho em questão tinha 7m, um túnel tramado com metal e barba-de-velho, que não pode ser adquirido pelo Salão, como é de praxe com as obras premiadas, porque não caberia no acervo do MASC e a barba-de-velho dificultaria sua conservação. Em troca, Maria Clara ofereceu uma obra menor dessa mesma série que também concorria no Salão Victor Meirelles, e essa fica guardada-exposta constantemente no acervo, pendurada no teto como um casulo, “como é o jeito dela”, por causa da oxidação do metal. Essa obra foi de fato exposta ao público novamente junto com outras do acervo no ano passado, e ao rever a obra a artista se surpreendeu, “eu fiquei tão emocionada quando a vi, porque ela simplesmente ficou mais velha, ela tem vida”.

Maria Clara Fernandes realmente se apaixona pela sua criação. Ela usa belos adjetivos e se emociona ao descrever cada uma de suas obras, relaciona-se apaixonadamente com cada uma delas. Mas cada relação tem seu tempo, pois atualmente a artista está completamente envolvida e inebriada com seu último trabalho, as Caixas Sonoras. As Caixas são quatro instrumentos-objetos com plotagem de auto-fotografias distorcidas no seu fundo. As caixas eram embalagens de pente de tear que a artista restaurou para guardar essas imagens dentro – como não queria usar as tampas para fechá-las, usou fios-de-aço para propor uma transparência em que a música ficasse evidente. Mas era para ser apenas metafórico até que, ao esticar as cordas, Maria Clara descobriu que poderia achar as notas que quisesse nelas. A artista encantou-se e começou a fazer as outras Caixas, cada uma com uma composição de cordas própria.

Simbolicamente a música sempre esteve em seu trabalho, seja na preparação para iniciar o dia, ou nas formas das obras que muitas vezes lembram instrumentos ou até músicas visuais instaladas no espaço. No seu atelier tudo se mistura, natureza, música, arte, artesanato. Em meio às obras-de-arte, tapetes, teares, há o piano e uma enorme partitura desenhada em uma das paredes. “Caixas Sonoras foi a consolidação da música no meu trabalho como artista plástica, o explicitar a música dentro da obra, mas a música sempre esteve lá. Cada parte de criação tem uma coisa forte de música acompanhando, tem uma trilha sonora... E foi legal descobrir isso”.

Suas obras sempre têm todas as suas referências e formações entrelaçadas, tanto que para muita gente Caixa Sonora também lembra um tear, associação que não havia ocorrido à artista, “para mim foi uma surpresa, eu não havia pensado nisso, talvez porque esteja meio incorporado”. Esse trabalho passou pelo MASC, em Florianópolis, e pelo Memorial da América Latina, em São Paulo, através do Projeto Schwanke. Em São Paulo a artista realizou uma performance musical com uma da Caixas. Desde que voltaram da exposição no Memorial, as Caixas continuam embrulhadas num canto do atelier. “Se eu abri-las não faço mais nada, fico tocando o dia inteiro, posso continuar compondo eternamente com elas, preciso ter um tempo para continuar esse trabalho, ele merece uma performance, uma gravação, um vídeo”. Indagada se venderia uma das Caixas, a artista responde: “já fui muito boazinha de num momento máximo de criação emprestá-las para duas exposições”.

Sobreviver da arte

A artista sempre subsidiou sua produção artística com as vendas de seu atelier de tecelagem, só ultimamente é que começou a vender algumas obras-de-arte. Em geral as pessoas a procuram atraídas pelas grandes obras expostas em Salões, exposições individuais, mostras coletivas, mas acabam levando peças menores. “Posso dizer que eu sou uma artista muito bem sucedida, consegui subsidiar minha existência com oficinas e o atelier de tecelagem manual, e agora eu estou começando a vender obras, isso dá um retorno, embasa mais”. Apesar de nem sempre ter tido um fluxo de venda, Maria Clara também nunca teve muitos gastos financeiros na sua produção, já que sempre usou refugo como matéria-prima, seja usando caixas de pentes de tear que iriam para o lixo, seja fios de eletro-erosão que seriam descartados, seja materiais orgânicos que colhe em sua chácara. O seu maior investimento sempre foi tempo e dedicação às suas criações.
A desvantagem que Maria Clara vê em ser mais uma das artistas contemporâneas que ainda dependem de outra fonte de renda fixa, no caso seu atelier de tecelagem, é a de não poder dedicar-se inteiramente à criação artística em momentos de grande envolvimento com uma obra, como é o caso das Caixas Sonoras, processo que teve que ser interrompido para que pudesse se dedicar também ao atelier. “Eu poderia fazer diferente hoje, buscar um patrocínio para que pudesse ficar um ano só me dedicando a esse trabalho, mas prefiro outro caminho, resolver eu mesma, não gosto de ter que ficar dando satisfações, fazendo relatórios. Então também tenho uma pequena vantagem, que é a liberdade”, diz a artista, e completa, “nunca pensei em parar de fazer isso, nem cogitei. Porque eu acho uma coisa tão especial, e vem tão plena, tão abundante, que não tem sentido”.

Mesmo como tecelã, ou design de tecelagem manual, como se auto-intitula, seu trabalho não é banal. Maria Clara gosta de criar peças, nunca ficar repetindo as mesmas até a exaustão. Muitas vezes é contratada apenas para criar, e depois outros ateliês continuam a produção. No seu próprio atelier, o “Arte Viva”, cria o que chama de tecidos especiais, que são peças exclusivas, não utilitárias, feitas com metais e fios diferenciados. Seus tapetes já foram premiados pelo seu desenho único e novo, um desenho que tem a ver com ela, com a região, com a contemporaneidade. Se fosse para ser apenas uma tecelã padrão, Maria Clara acha que seria uma profissional medíocre, “meus professores de tecelagem queriam me matar, a regra número um era que os grãos deveriam ser perfeitamente iguais (risos), eu era a pior aluna, não tinha um grão igual ao outro!”. Mas essa é a sua marca pessoal, “é querer me matar querer que eu faça um igual ao outro”. E completa “eu curto isso, não acho nada diminutivo. Que não seja arte, mas ao menos é uma criação, eu não consigo fazer coisas sem criar. E já pensaram se eu fosse obediente, que horror, a gente iria estar perdendo tudo isso”.

A visita de Arturo Lima

A certa altura Maria Clara Fernandes faz um confissão, “não fui eu quem criou a primeira Caixa Sonora, foi o Arturo Lima”. Arturo Lima é a sua encarnação de um personagem que surgiu em sua vida. É como uma outra pessoa, quando acorda Arturo Lima, Maria Clara cria como se fosse outro artista. Esse personagem surgiu num Workshop que fez com o artista Fernando Lindote, ela diz que “é uma salinha que estava dentro de mim e foi aberta, quando tenho tempo trabalho nessa salinha”. Arturo Lima é um senhor que de certa maneira resgata os artistas de todos os seus antepassados. O nome Lima vem de sua família, é o sobrenome de sua avó materna, a Clara Lima, que foi quem a iniciou nas atividades manuais. E Arturo vem de Artur, seu neto que nasceu com diversos problemas de saúde, e a fez rever seus valores em relação a seu trabalho. “Mas eu não fiquei pensando, o nome veio inteiro na minha cabeça”.

Existe toda uma série do Arturo Lima que só será mostrada em 2012, ano de sua morte, quando terá 85 anos. “Por que ele morre em 2012? Porque ele não vai ficar um velho decrépito sem fazer nada. Mas ele morre muito bem, simplesmente não acorda de seus belos sonhos. Ele é encontrado em sua casa, e aí é que descobrem a obra dele, só aí é que vão poder expor, porque é uma obra introspectiva, na verdade ele não faz arte, é a maneira que ele organiza as coisas que para ele têm valor”.

No ano do nascimento de Artur, Maria Clara fechou-se para as questões do circuito de arte. Ficou em seu atelier produzindo sozinha, sem muito contato com o mundo de curadores, exposições, e outros artistas. Esse foi o ano que a artista participava do Projeto Schwanke, que tem a duração de dois anos. Num primeiro momento foi selecionada com a obra Equilíbrio, dois receptáculos pendurados como uma balança, um fazendo contrapeso ao outro, em uma extremidade um grande bolo de metal dourado, e na outro uma pequena pedra. A princípio Maria Clara não queria inscrever-se no Projeto Schwanke achando tratar-se de um Salão nos moldes tradicionais, ela achava que tinha chegado num ponto de sua trajetória em que já deveria estar preparando somente suas individuais, ou ser convidada para exposições coletivas; enfim, um outro estágio que não é o de um artista no início de carreira. Mas o curador do Projeto, Charles Narloch, ligou para Maria Clara explicando tratar-se de um projeto diferente, uma apresentação dos artistas de Santa Catarina que seria vislumbrada por curadores nacionais, além disso, um incentivo à produção, já que esses curadores acompanhariam o trabalho dos artistas selecionados por um ano.

A primeira edição do Projeto não aconteceu exatamente como o planejado, e Maria Clara acabou passando esse período numa produção intensa e introspectiva. Após um ano, quando os curadores voltaram a visitar seu atelier, Clara Fernandes tinha três possíveis exposições prontas: Caixas Sonoras, Arturo Lima e Reserva. Na dúvida de qual delas iria para o Projeto, Maria Clara, apaixonada pelos seus novos objetos-instrumentos, fazia coro pelas Caixas Sonoras. Acabaram optando por esta, que casou perfeitamente com a mostra. “Ficou muito legal a exposição, no Memorial em São Paulo foi genial, lá tive a oportunidade de fazer perfomances musicais...”. Perguntada se também não tinha feito a performance quando a exposição esteve no MASC responde, “aconteceu uma coisa meio chata e não consegui fazer, mas vamos pular essa parte. Tem tanta coisa legal para contar!”. E assim Maria Clara segue falando com entusiasmo de suas obras que se misturam com sua casa, com sua própria reserva ecológica, com sua vida...

Da abundância à escassez

Em Reserva, uma das séries preparada durante o Projeto Schwanke, a artista guardou em gaiolas-cestas de cobre e inox vários elementos orgânicos – galhos, folhas, terra e húmus – de sua chácara, que colecionava sem saber o porquê. Maria Clara fossilizou essas espécies para guardar num lugar bem protegido, o que os infertiliza e não leva a nada. Essa série discute o hábito humano de colecionar, de guardar, de querer conservar tudo, e ao mesmo tempo toca na questão ecológica da preservação. O crítico e curador Charles Narloch ressalta que a “delicadeza e morbidez dos elementos apropriados da natureza parecem gritar que estamos aprisionados a um ciclo energético onde nada se cria, tudo se transforma”.
De Terral à Reserva passaram-se cerca de 15 anos, percebe-se a mudança do encantamento de uma paulista com a abundância na natureza na Ilha de Santa Catarina até a preocupação de uma moradora que vê ano a ano essa natureza ser invadida cada vez mais pela cidade. Na primeira obra, a artista não tem a preocupação sequer de conservar a própria obra, como se várias delas fossem brotar no seu atelier. Na segunda, Sem Retorno, Maria Clara parece já perceber o excesso de plástico que aparece na Lagoa da Conceição, nas praias, num processo que não parece reversível. Na última, já é latente o desespero de conservar, mesmo que no simulacro, tudo o que a cerca, incluindo um galho de limeira, sempre voltando às suas origens.